sexta-feira, 6 de maio de 2011

Cantigas de amor

As Cantigas de Amor têm origem provençal, com os poetas do sul da França, e foram levadas a Portugal através de eventos religiosos e contatos entre as cortes.
O eu lírico das Cantigas de Amor é sempre masculino: o trovador faz a corte a uma dama, dentro das convenções do amor cortês traduzidas na "vassalagem amorosa"  e na idealização da mulher.
A temática continua sendo a "coita" agregada à distância absurda entre o homem e a mulher objeto de seu amor: é a coita amorosa do trovador perante uma mulher inatingível. O amor é impossível, irrealizável, idealizado, fantasiado. O sofrimento amoroso é, na maioria das vezes, causado por um amor proibido ou não-correspondido.
A mulher amada está em posição de superioridade, até por sua condição social, sendo tratada como "mia senhor". Seu nome jamais é revelado, por mesura ou para não comprometê-la. O trovador coloca-se humildemente a seu serviço, como seu vassalo, rogando para que ela aceite sua dedicação e submissão, refletindo a relação social de servidão da época.
Há uma contemplação platônica e a aparência física da mulher amada é tratada como extensão das qualidades morais.
A linguagem é refinada e bem mais trabalhada do que a das cantigas de amigo, tendo em vista seu ambiente cortesão, retratando a vida da nobreza nos palácios.
Possuem estrutura de cantigas de refrão ou de maestria (mais complexas).

Então possuem como características:
·         Amor do trovador pela mulher amada.
·         Voz lírica masculina
·         Mulher idealizada.
·         Contemplação platônica.
·         Sofrimento por amor.
·         Vassalagem amorosa.
·         Amor cortês.
·         Estribrilho ou refrão.

Veja:



Quer'eu em maneira de proençal
Dom Dinis
Quer'eu em maneira de proençal
fazer agora un cantar d'amor,
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nen fremusura non fal,
nen bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de ben
que mais que todas las do mundo val.
Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a faz, que a fez sabedor
de todo ben e de mui gran valor,
e con todo est'é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bon sen,
e des i non lhi fez pouco de ben,
quando non quis que lh'outra foss'igual.
Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui ben, e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit', e por esto non sei oj'eu quen
possa compridamente no seu ben
falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.

Paráfrase 
Quero à moda provençal
 fazer agora um cantar de amor,
 e quererei muito aí louvar minha senhora
 a quem honra nem formosura não faltam
 nem bondade; e mais vos direi sobre ela:
 Deus a fez tão cheia de qualidades

 
que ela mais que todas do mundo.
 Pois Deus quis fazer minha senhora de tal modo
 quando a fez, que a fez conhecedora de
 todo bem e de muito grande valor,
 e além de tudo isto é muito sociável
 quando deve; também deu-lhe bom senso,
 e desde então lhe fez pouco bem
 impedindo que nenhuma outra fosse igual a ela
 Porque em minha senhora nunca Deus pôs mal,
 mas pôs nela honra e beleza e mérito
 e capacidade de falar bem, e de rir melhor
 que outra mulher também é muito leal
 e por isto não sei hoje quem
 possa cabalmente falar no seu próprio bem
 pois não há outro bem, para além do seu.

Essa é uma cantiga Maestria, pois não tem refrão e é afastada dos esquemas populares, apresentava um louvor absoluto à dama